se eu soubesse
não te tragaria num só gole
mas aí, o porvir
era tortuoso e evidente.
te procurava nas velhas portas
em todos os mapas traçados
em todos os riscos riscados
nas minhas íris tortas
(e só te encontrei onde
eu não me encontrava).
e agora eu já não sei
aonde que me começa
e aonde te termina
nos nossos traços.
aquelas garotas anoiteceram
viraram mulheres
felizes brindaram o começo do fim
em breve virarão
porta-retratos
das netas que também
estarão felizes e brindando
mais um começo do fim
um dia o chão
acordou disposto
levantou-se
e virou parede.
produziu a casa
e armou a rede.
(só há ócio
após esforço)
Uma timidez sôfrega lhe veste
Como quem a terra avista.
Era um sorriso agreste
Em plena avenida Paulista.
Suor e lágrimas se misturaram
E como uma reação catalisada
Explodiram e voaram à estrada
Ao sofrimento usual
Às lágrimas de sal;
E os sorrisos brotaram da boca infértil.
Adeus, êxodo rural.
o silêncio imprudente veio
o chão afundou
como a mão a um seio
garganta no licor
meus olhos faiscaram lágrimas
de benevolência
minha alegria era fática
como uma sentença
um sentimento quase ambíguo
uma incertidumbre
limbo entre lágrima e sorriso
um doce azedume
é um oximoro óbvio
você me invade
é contraditório e lógico
livre no entrave
a vida é um sonho
da vida de outrem
o sonho é a vida
de quem não tem ninguém
a vida é o intervalo
entre o sono e o sonho
entre a roupa e o armário
primavera e outono; um vácuo
o sonho é qualquer cousa
que a vida deseja
que a alma almeja tê-la
algo que fica na lousa
(mesmo depois de ter sido apagado)
um paralelo é traçado
a vida e o sonho
perpendiculares ao lado
afogam-se no que abandono
assim passa cada ano:
me enrolo num mistral
pra me aquecer do minuano
- um aval
o vento vem ventando veloz
bem de longe para o longe
as ondas quebram a sós
- aonde?
o tempo se vai e esvai
a vida não cabe no relógio
e no poema ela se cai
- semióbvio
Não me limito a meu só pouco corpo
Não obstante também não caibo em minh’alma
Sorri displicente o destino solto
Regozijando-se de minha calma
Preferi ir além da minha física
Sem nenhum pudor, proferi que acertei
Não me sinto aquém do que me limita
Não tornei o que me disseras como lei
Meus moinhos rodam perpetuamente
Com presença ou ausência de ventanias
Mantenho-me em um estado latente
Sempre me expando com o passar dos dias
Ocupo de espaços minha vã mente
Caminhando fora das minhas vias.
aqui jaz a solidão
aqui por estes versos
por léguas de desertos
queimei meus pés pelo chão
aqui jaz a primeira estrofe
acenderam-se as lâmpadas
a tristeza hoje se contorce
por entre as tantas flâmulas
aqui jaz a morte
que por bem ou por mal
por azar ou até por sorte
lavrou-se do meu quintal
aqui jaz a frieza
e também o poema
abro as varandas com leveza
vai-se a ferida, some o edema.
errar às vezes
em raras vezes
em raros meses
errar os meses
um erro necessário
comum e claro
um erro nesse, saro
os erros do passado